Onde estamos agora – Parte 4

Move On

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O disco que encerra a trilogia, Lodger não foi gravado em Berlim, mas inicialmente na Suíça e acabou por ser finalizado em Nova York. Bowie parecia que finalmente tinha se tornado diante de todos ele próprio e não apenas mais um dos seus personagens. Porém numa espécie de anticlímax dos seus trabalhos anteriores Lodger apesar de ser um grande disco, soa mais fraco que os seus antecessores. As 10 faixas do álbum tratam do deslocamento mais uma vez, nos evocando lembranças de um narrador pulverizado e não mais tão vinculado ao seu ambiente. Bowie voltava a Nova York, assim como Iggy Pop que já começava a traçar seu novo caminho, tentando se livrar das especulações que era apenas uma sombra de seu amigo inglês. Lodger talvez seja o primeiro álbum a trazer Bowie acessível ao público em geral, é um disco que fica a margem de toda a sua discografia sendo adorado por alguns fãs e negligenciado por outros. Não há grandes inovações, experimentações musicais de 10 minutos, ou letras influenciadas tanto pela alma atormentada de seu compositor. É um disco clean, sem sobressaltos depois de dois outros trabalhos tão densos. Na capa, Bowie apareceu retratado pelo fotografo Brian Duffy, em um trabalho realizado em parceria com o artista britânico Derek Boshier, sendo retratado como uma vítima de acidente, com o nariz aparentemente quebrado.  A inspiração para o trabalho? O filme O Inquilino, de 1976, dirigido por Roman Polanski, que também encerrava a sua trilogia: “A trilogia do apartamento” composta por este e mais dois outros filmes: Repulsa ao Sexo (1965), O bebê de Rosemary (1968).

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Foi também nesse período que David abraçou em definitivo o novo e forte mercado de videoclipes, quando iniciou sua parceria com David Mallet para o vídeo de Boys Keep Swinging. A parceria duraria até os anos 90 marcando os dois Davids como verdadeiros artistas deste produto.

“Quando Bowie deixa Berlim em definitivo, quando acaba essa fase qual o primeiro disco que ele lança? ‘Let’s Danc’e que era totalmente diferente do que ele havia feito até então. Ele é dance, é diferente de tudo. Eu considero o Bowie um anarquista, tão anarquista que não tinha compromisso nem com ele mesmo. Mais uma vez ele se reinventava. ”, afirma Coletto.

Para sempre

“Adeus, David Bowie agora você está entre #Heroes. Obrigado por ter ajudado a fazer o muro cair.” Publicou no Twitter o ministério das Relações Exteriores da Alemanha na data da sua morte. Na realidade, Bowie e Berlim nunca mais se separaram, talvez tendo sido esse na realidade o relacionamento mais antigo que cultivou. Seus caminhos se cruzaram para sempre e influenciaram a carreira de tantos outros artistas. O primeiro nome do Joy Division foi Warsaw em homenagem a faixa de Low, U2 e Brian Eno seguiram para o Hansa Studio, na época em que o muro estava sendo derrubado no começo dos anos 90, quando a banda precisava de um novo caminho, apenas para citar alguns exemplos.

“A Alemanha não tem pop star deles, então, eles adotam as pessoas que moram aqui com um orgulho danado. O Bowie é um berlinense sem dúvida. Quando ele morreu foi capa de todos os jornais que o berlinense mais famoso tinha morrido. O Bowie está aqui o tempo todo, principalmente em Schönenberg e em Kreuzberg, onde ele saia, o bairro da balada. Na obra dele, claro, tem uma coisa especial de Berlim ali que só ele captou.”  Nina Lemos

579292732Em 1981 Bowie participou interpretado a si mesmo em uma cena do filme Christiane F. – Wir Kindle von Banhof Zoo (Eu, Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída) durante um show em Berlim, além de assinar a trilha com versões de suas músicas em sua fase berlinense. O filme mostra a história de uma jovem e seus amigos viciados em drogas na cidade ao final dos anos 70.

1987, em junho, ele fez a sua mais emblemática viagem a cidade dividida. O concerto para Berlim, com o palco montado em frente ao prédio do parlamento alemão – o Reichstag – na região do Portão de Brademburgo, fez com que Heroes fosse ouvida dos dois lados do muro. Os berlinenses do lado oriental se amontoaram ao pé da muralha para ouvir o show. Foram 3 dias de apresentações. “Enviamos os nossos melhores pensamentos aos nossos amigos do outro lado do Muro.”

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Na Hauptstraße 155, Schönenberg agora uma placa marca o lugar onde Bowie viveu. As mesmas paredes amarelas, mas não o mesmo mundo. Ele mudou e grande parte dessas mudanças de algum modo tiveram a contribuição dos sons que surgiram naquele lugar. O mundo nunca mais foi o mesmo, e nunca mais será sem a genialidade do antigo morador que encontrou a si mesmo e se reuniu na cidade dividida.

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Foto tirada por essa que vos escreve, em um dos momentos mais emocionantes que viveu nos últimos tempos.

 

No próximo post fechamos esse especial com um guia de como conhecer o melhor da Berlim de Bowie.

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