Onde estamos agora – Parte 3

Uma nova carreira em uma nova cidade

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Iggy na porta do prédio onde ficava o apartamento que  dividia com Bowie em Berlim

Berlim e apenas mais dois na multidão. Jim e David podiam caminhar pela cidade, comprar tintas e voltarem para o seu apartamento passar a tarde discutindo arte, pintura e trocando experiências entre si ou podiam caminhar por entre as barracas de antiguidade na Winterfeldplatz. Para o jantar o local escolhido era o Cafe Exil em Kreuzberg, geralmente na companhia de  Coco. Outros locais incluíam o Dschungel 2, o restaurante Asibini e o Paris Bar em Kantstraße. No Café Anderes Ufer era comum encontrá-los prontos para o café da manhã, o local um reduto gay, quando acabou por ser atacado por um grupo homofóbico teve toda a sua restauração garantida e paga por David. Hunt e Tony Sales que tocaram nas gravações dos álbuns de Iggy e Bowie e depois foram membros do Tin Machine nos anos 90 relembram a cidade:

 

“Sexo, bebidas, drogas. Berlim estava aberta vinte e quatro horas por dia. Bares, clubes. Havia uma vibração. Você tinha todo esse povo do lado de cá do muro. Isso devia mexer com a cabeça…”

Low o primeiro álbum daquela que ficou conhecida como “trilogia de Berlim” nasceu dos escombros da trilha nunca lançada por David para O homem que caiu na Terra – quando finalizado inclusive a capa do álbum traz Bowie com o estilo do seu personagem – mas ele não nasceu na capital germânica. Tony Visconti, Brian Eno e Bowie mais uma vez começaram os seus trabalhos na França. Brian Eno e Bowie se conheciam há cerca de 5 anos, mas nunca haviam trabalhado juntos apesar da admiração mútua. Eno um dos criadores do Roxy Music, assim como Bowie tinham definido o glam rock nos últimos anos, porém desde que iniciara a sua carreira solo se dedicava a sons experimentais.

Low e seus dois lados, o primeiro instrumental e o segundo com letras que podem soar até incompletas, desencontradas são o retrato perfeito de David naquele momento: sanidade afetada pelo histórico de drogas e álcool, um casamento em ruínas, a angustia pelo novo. Como o som dos sintetizados que, segundo Tony Visconti “fodiam com a noção do tempo”, David também estava deslocado, a margem daquela vida. David buscava se encontrar pela primeira vez na sua carreira. O etéreo, o escapismo, o deslocamento de uma nova cidade, tudo estava ali.

O trabalho foi recebido com estranheza pelos fãs e críticos, faixas como Warszawa não podiam ser mais diferentes do que todas as outras apresentadas anteriormente. “A gravadora não gostou o que nos deixou muito felizes, tínhamos tido sucesso em sermos completamente radicais e diferentes.”, afirmou Tony Visconti.

Não houve divulgação ou turnê. O Bowie “low profile” saiu em turnê com Iggy Pop servindo como seu tecladista, tentando se manter o mais anônimo possível, ocupando seu canto do palco por trás do seu teclado como qualquer músico comum noite após noite. Para os que compravam o ingresso de Iggy esperando David era frustrante. Ele entrava se apresentava e assim acabavam todas as noites. Uma coletânea foi providenciada: Changes Bowie, foi pensando pela gravadora como algo para cobrir o buraco comercial deixado por Low.

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Apenas um tecladista para Iggy Pop.

 

O Muro

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O Muro de Berlim visto do Hansa Studio na década de 70

 

“O Muro era lindo – reconta Iggy Pop – ele criava uma ilha maravilhosa, da mesma forma que os vulcões criaram as ilhas no mar. As pressões antagônicas criavam um lugar que todo mundo diligentemente ignorava e ninguém te enchia. Era maravilhoso”

 

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Iggy, Bowie e a transsexual Romy Haag com quem manteve um relacionamento, durante a comemoração do seu aniversário em Berlim.

Na  Berlim de 1977, David e Iggy produziram Lust for Life, o segundo álbum do ex-vocalista do Stooges. A cidade pela primeira vez aparecia decisiva nas letras, como em The Passenger, quando temos a sensação de acompanharmos a visão da cidade pelos olhos de Bowie e Pop: (“We’ll ride through the city tonight / We’ll se te city’s ripped backsides /We’ll see the bright and hollow sky ”) 

 

 

 

 

“Nós passearemos pela cidade essa noite / Nós veremos os lados rasgados da cidade /Nós veremos o céu claro e vazio”. – The Passanger

 

Então finalmente chegamos a Heroes, o único dos 3 álbuns a ser gravado e produzido realmente na cidade, e ele em definitivo jamais seria possível sem Berlim e seu Muro que Bowie literalmente via da janela no magnífico Studio 2 do Hansa – o Meistersaal. Cercado pelo muro que dividia não apenas a Alemanha, mas de certa forma todo o mundo em dois. O Muro de Berlim, suas sentinelas armadas e arame farpado literalmente ilhavam o Hansa dentro daquela realidade.

 “Você se sente em Berlim ouvindo as músicas dele sobre Berlim! É como se a gente pudesse ver aquilo e viver um tempo que a gente não viveu, a da Berlim dividida pelo muro. Mais marginal do que ela é hoje, mas ainda viva, graças a Deus.” Nina Lemos

 

“Sou uma criatura regida pelo ambiente”, disse ele certa vez. “Meus discos são expressões e reflexões desse ambiente. Heroes sem dúvida é, e é preciso entender isso para entender o disco e a música”. Enquanto Eno empregava a sua técnica de Cartões de Estratégias Oblíquas, cartões criados por ele com instruções e frases aleatórias como “Use uma ideia antiga” para estimular a composição, foi uma cena vista da janela que inspirou uma das letras mais emblemáticas de David. Ele estava sozinho no estúdio durante os intervalos das gravações quando observou pela janela um casal se beijando. Esse casal era Tony Visconti, que até então era casado, e Antonia Mass (que posteriormente atuaria como backing vocal da música que inspirou) com quem estava tendo um affair, aproveitando a sua paixão em meio as sombras do muro.  (“I, I can remember (I remember) / Standing, by the wall (by the wall) / And the guns, shot above our heads (over our heads) / And we kissed, as though nothing could fall (nothing could fall)”)

 

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Brian Eno, Robert Fripp e David Bowie, Hansa Studios, 1977

 

 “Eu, eu posso me lembrar (Eu lembro)

“Ele vai falando sobre o muro. Ele faz uma ironia, um cinismo sobre a vergonha também: And the shame, was on the other side, a vergonha estava sempre do outro lado e não onde estávamos, era sempre assim, do outro lado do muro.”, complementa Mauricio Coletto.

Neuköln nome de um dos bairros de Berlim e V-2 Schneider, com o nome em homenagem ao co-fundador do Kraftwerk, Florian Schneider, ajudam a entender as cidades e os sentimentos de Bowie em relação a ela, mas certamente nenhuma outra letra resume a paisagem e os sentimentos de Bowie quanto Heroes; uma mistura de tristeza, euforia e melancolia.

Bowie On 'Good Morning America'
Bowie e Angie, Good Morning America, 1976

Como na “batalha” da letra, Bowie encarava seus próprios fantasmas e medos. Ele havia levado seu filho para morar com ele desde o final do ano. Sua esposa Angie, ao chegar na casa onde morava na Suíça e perceber que seu filho havia sido levado, no começo de 1978, tentou suicídio. Além desse fato, Angie também esteve em Berlim tentando se reconciliar com o marido, e ao descobrir que a sua assistente Coco morava no mesmo apartamento que ele e Iggy, jogou pela janela todas as roupas dela. David teve uma crise nervosa e acabou sendo levado ao hospital com suspeita de ataque cardíaco. Bowie agora já distante da figura fantasmagórica de antes – ele havia inclusive aparecido no tradicional programa de natal de Bing Crosby comediante inglês e com ele gravara o dueto Peace on Earth/Little Drummer Boy

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David Bowie e Bing Crosby, especial de Natal, 1977

como presente para o pequeno Zowie, que estava com 6 anos na época – apresentava uma imagem mais saudável e aparecia elegante, porém com visual bem mais simples dos coloridos anos anteriores. O tempo como pai que ele dizia ter perdido tentava ser recuperado, Zowie, que mais tarde mudaria seu nome para Duncan, estava matriculado em uma escola da cidade e os dois passavam muito tempo juntos. O divórcio de Mary Angela Barnett e David Robert Jones só foi assinado em 1980.

Ao contrário de Low, Heroes originou uma turnê mundial, a Isolar II, e durante o seu intervalo David voltou a Berlim para gravar Just a Gigolo, filme dirigido pelo ator David Hemmings. Nele Bowie interpreta um oficial prussiano que ao retornar à cidade após o término da Primeira Guerra Mundial, sem perspectivas acaba se tornando um gigôlo para mulheres ricas e solitárias. A motivação para que ele aceitasse o papel atendia por Marlene Dietrich, musa do cinema com o qual ele sonhava em conhecer e contracenar, o que acabou por não acontecer já que as cenas delas foram filmadas em Paris. O filme foi mal recebido pelo público e pela crítica. “Tive meus 32 filmes do Elvis em apenas 1 só.”, afirmou David anos mais tarde.

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Paul Ambrosius von Przygodski, personagem de Bowie em Just a Gigolo

Stage foi o segundo álbum ao vivo lançado por David, chegou às lojas em 1978, gravado durante os shows nos Estados Unidos e pode ser considerado um trabalho de mestre em sua edição conduzida por Tony Visconti.

 

 

Continua…

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