Onde estamos agora – Parte 2

72.pngO homem que caiu na Terra

“Eu honestamente não sei onde o verdadeiro David Jones está. Eu tenho tantas conchas, que me esqueci qual o aspecto da pérola. ” (David Bowie, revista Playboy, Setembro, 1976)

O ano era 1976, David Robert Jones, desembarcava em Berlim acompanhado de James Newell Osterberg. Ambos com 29 anos. David, inglês, passara os últimos anos redefinindo a história da música, moda, comportamento e atitude sexual não apenas na sua terra natal, mas em todo o mundo. Ele já havia sido Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack e chegava na cidade não apenas com o mesmo visual da sua última encarnação: o Thin White Duke (Magro Duque Branco), mas também caminhando e parecendo exatamente com Thomas Jerome Newton, o alienígena que havia interpretado em O Homem Que caiu na Terra; os cabelos ruivos em um laranja único, a pele muito branca, a magreza excessiva. O filme havia sido filmado no ano anterior, no deserto do Novo México e o diretor Nicolas Roeg havia determinado ser David perfeito para o seu personagem principal depois de assistir ao documentário Cracked Actor. Produzido pela BBC em 1974, o programa expunha a fragilidade, o distanciamento e o estranhamento do cantor motivado pelo vício em cocaína, no banco de trás de limusines, no backstage dos seus shows quando ele parecia deslocado o resto da humanidade, tão real e tão estranho, que na visão de Nicolas ele não precisaria interpretar o alienígena do filme, ator e persona pareciam um só ser.

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Bowie em cena de O Homem que caiu na Terra, filme de 1976 dirigido por Nicolas Roeg

 

 

“Eu apenas coloquei meu verdadeiro eu no filme naquela época. Foi o primeiro filme que eu fiz. Eu estava praticamente ignorando o procedimento (de se fazer filmes), então eu estava indo muito por instinto, e meu instinto estava bem dissipado. Eu só aprendia as falas para aquele dia e as fazias do modo como eu estava me sentindo. E não era tãox difícil. Eu me sentia tão alienado quanto aquele personagem era. Foi uma performance naturalmente bonita…. Uma boa exibição de alguém caindo literalmente na sua frente. Eu estava totalmente inseguro com cerca de 10 gramas (de cocaína) por dia. Eu estava fora de mim do começo ao final.” (Bowie, Variety, 1992)

 

Iggy Pop 69431-21

James, Jim ou Iggy Pop. Nascido no Michigan, norte dos Estados Unidos, não apenas já havia escrito suas páginas na história da música, mas já tinha ido do céu ao inferno. O padrinho do punk, formara em 1967 com Dave Alexander e os irmãos Ron e Scott Ashenton os Stooges, e apenas um ano depois eles assinariam um contrato com a Elektra Records, e em 1970 lançariam Fun House até hoje cultuado por muitos como o melhor disco de punk já feito. Gravado com crueza, ele surgiu de um grande amontoado de jam sessions, as vezes nem tão bem-sucedidas dos seus integrantes. Apesar de hoje ser considerado uma obra-prima, na época as vendas não decolaram. Eles eram barulhentos, rápidos, inovadores, inconsequentes. O que produziam no palco era o retrato do que passavam em sua vida pessoal, sem regras, com excessos por todos os lados. As performances no palco do vocalista Iggy podiam incluir sangue, acidentes, xingamentos, brigas e provocações à plateia. A gravadora então resolveu não arriscar um terceiro disco e sem rumo a banda parecia fadada a chegar ao seu fim. Foi quando em 1971, Iggy Pop e David Bowie se cruzaram no Max’s Kansas City em Nova York, e a empatia de duas figuras tão diferentes foi imediata. Um em ascensão e o outro em decadência. Bowie usando seu prestigio trouxe os Stooges à Columbia Records e acabou sendo o responsável pela mixagem do terceiro trabalho da banda, Raw Power assinado agora por Iggy e The Stooges. Mesmo com todas as tentativas de resgate, em 1973, menos de um ano depois do lançamento, os integrantes da banda já se encontravam novamente separados, demitidos por gastarem a maior parte das verbas da gravadora com bebidas e drogas e sem perspectivas do que viriam a encarar.

Em 1975 Jim se internou em um hospital psiquiátrico em Los Angeles, após dois anos vivendo em Los Angeles em base de favores e fugindo de problemas legais e financeiros. A sua internação era mantida com base no seguro saúde pago por sua mãe. Uma das suas únicas visitas era seu amigo David, que ainda envolto em seu próprio vício levava cocaína como presente. A antiga amizade foi retomada e Iggy passou a fazer parte do séquito que seguiu Bowie durante a turnê de 1976, Isolar, que promovia o disco Station to Station. Bowie foi acusado de ser um manipulador, um aproveitador, a fim de ganhar certa credibilidade na missão de salvamento de Iggy.  O fato é que a união dos dois modificou para sempre ambos e os caminhos do rock.

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“Eu sou um colecionador. Eu sempre apenas pareci recolher personalidades, ideias.”

The Idiot

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O luxuoso Chateau D’Hérouville fica a 40 quilômetros de Paris, e foi lá que Iggy e Bowie começaram os trabalhos que deram origem ao primeiro disco solo dele: The Idiot. Bowie tocou vários instrumentos, foi co-compositor em diversas letras e dirigiu seu companheiro aos microfones, além de ajudar na formação da banda que o acompanharia. As músicas da parceria Pop / Bowie distanciavam ele de tudo o que havia feito com os Stooges e ajudaria Bowie a começar seu caminho em direção a sua “trilogia de Berlim”; “Iggy foi uma cobaia para o que eu queria fazer com o som”, afirmou. Era um trabalho mais sombrio do que tudo o que ele havia feito também. Terminado os trabalhos na França, eles seguiram para Munique, em direção ao Musicland Studios, um antigo bunker nazista convertido em espaço para gravações.

Finalmente a Alemanha em definitivo tomava forma na vida de Bowie, mas o seu fascínio pelo país era antigo. Ele passaria a transmitir toda a admiração que possuía pelo expressionismo do cinema alemão para a música. O seu interesse pelo chamado Krautrock do Kraftwerk, Neu! e Tangerine Dream apenas crescia. Em 1976, ele havia sido apresentado ao autor Christopher Isherwood, cuja a visão da boêmia pré-guerra de Berlim descrita no Livro The Berlin Stories, serviu como inspiração para o musical Cabaret um dos filmes favoritos do cantor.

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“Berlim foi o portal artístico e cultural da Europa nos anos 20 e literalmente, onde aconteceu tudo de importante nas artes. Eu queria me ligar nisso em vez de em Los Angeles e seu miserável comércio mágico”

 

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Iggy Pop, David Bowie e Corinne Schwab em Berlim nos anos 70

Corinne Schwab, assistente pessoal de David encarregada de procurar um lugar para que os dois se instalassem na capital alemã, determinou o refúgio: 155, Hauptstraße, Schöneberg. A fachada pintada de creme, as portas em madeira marrom e metal. Algumas manchas de mofo, pé-direito alto e uma escada em caracol seguindo pelo mosaico de lajotas que forrava o vestíbulo. Tudo bem longe da rotina e visão de um rockstar.  Schöneberg era um bairro pobre, dominado por imigrantes turcos e a comunidade gay da cidade, era afastado e barato. Coco como ficou conhecida, cuidava dos dois, inclusive de todos os seus gastos com afinco. Havia bares, livrarias, ao lado do prédio o estúdio de tatuagem Lotus. Saindo dali era (e ainda é) possível passar algum tempo perdido no depósito na frente da Bucherhalle, um sebo que fica à esquerda por sob um toldo branco e amarelo. Havia bares, livrarias e um mercado a 10 minutos de caminhada.

 

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Hauptstraße, Schöneberg

 

103.jpgO lugar escolhido para a mixagem do álbum: Hansa Tonstudio, ou o “Hansa ao lado do muro”, no coração da capital alemã, ao lado da Postdamer Platz. Construído em 1912, servira como salão de baile durante a República de Weimar, nos anos 20 e 30 e também como sala de concertos para a Alemanha Nazista. A família de editores Meisel comprou o prédio principal em 1973: Meistersall, que foi convertido no Hansa 2 com 266 metros quadrados de área e 7 de altura.

Além da parceria musical, ambos procuravam em Berlim um refúgio dos seus demônios: as drogas. Bowie posteriormente se lembrou que não fora a ideia mais inteligente: “Eu e Iggy nos mudamos para a capital europeia da heroína. ”, afirmou à MTV em 1995. O produtor Tony Visconti, envolvido no projeto e colaborador de Bowie até o final da vida do cantor, também opinou sobre a escolha da cidade: “Um paraíso para todos que quisessem ficar anônimos, como eles queriam ficar. ”

 

Continua…

 

 

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