Onde estamos agora – Parte 1

A ideia da concepção desse blog saiu depois de eu escrever uma matéria para revista que fiz como sendo o meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso -. A pauta de turismo teve como tema Bowie e Berlim. Além de, por motivos óbvios ter se tornado o meu xodó dentro da revista, foi simplesmente muito elogiada, que me deu como incentivo escrever sobre Bowie o máximo que pudesse.

Aproveitando o aniversário de Low, inicio hoje, a publicação em pequenas partes do mesmo material da revista (caso queira pular as partes e ir ao todo clique aqui) iniciando uma série sobre uma das fases mais geniais, não apenas de Bowie, mas de toda a música em sua História.


 

Onde estamos agora – parte 1

Uma crise, uma cidade, um desencontro, um reencontro. Como a união Bowie e Berlim mudou a trajetória da música

bowie1

“Had to get the train (Tive de pegar o trem)

From Potsdamer Platz (Em Potsdamer Platz)

You never knew that (Você nunca soube que)

That I could do that (Que eu poderia fazer isso)

Just walking the dead (Apenas andando com os mortos)

 

Sitting in the Dschungel (Sentado no Dschungel)

On Nürnberger Strasse (Na Rua Nürnberger)

A man lost in time (Um homem perdido no tempo)

Near KaDeWe (Perto da KaDeWe)

Just walking the dead (Apenas andando com os mortos)

 

Where are we now, where are we now?” (Onde estamos agora, onde estamos agora?)”

 

 

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Bowie presente / ausente no vídeo para Where Are We Now, caminhando de volta por Berlim.

08 de janeiro de 2013, 05 horas da manhã, depois de mais de 10 anos de silêncio, no dia em que completou 66 anos, David Bowie despertou o mundo, como sempre havia feito. O homem das estrelas, aquele que caiu na Terra, e havia se retirado dos palcos em 2004, depois de sofrer um ataque cardíaco e passar por uma cirurgia de emergência na Alemanha, surpreendia a todos e colocava na internet uma música nova, prenuncio do álbum que sairia em março do mesmo ano… Quase ninguém esperava, quase ninguém acreditava que isso seria possível, Bowie simplesmente havia se retirado dos palcos, sem uma palavra definitiva, sem um ponto final, sem promessa alguma. Passara a última década sendo apenas um dos tantos moradores de Nova York, passando por todos, criando sua filha, vivendo com a sua família. Poucos eventos, participações especiais, mas nada de concreto sobre que rumo tomaria.

E ele agora voltava, voltava “caminhando por entre os mortos” na cidade que o reinventara tantos anos antes. O Bowie dos anos 2010 procurava as mesmas raízes do Bowie do final dos anos 70 remetendo em sua nova música a paisagem que marcou a sua vida – e toda a história da música no século XX: Berlim. A paisagem alemã era citada… Postdamer Platz, embarcamos com ele tentando se encontrar novamente.

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Postdamer Platz, anos 70

A voz estava lá, ele em excelente forma, colocando sua emoção nas ruas que o resgataram antes, mas não era uma nostalgia melancólica, vazia ou datada. Era sentimento, saudade, verdade, emulados em uma sonoridade que carregava não apenas um pouco do melhor que foi produzido por outros artistas durante o período no qual a sua carreira se encontrou em hiato, mas nos anos 80 e 90 pelo próprio e pelos demais. Um homem perdido no tempo diz ele…E perdido no tempo, mesmo tendo gravado todo o seu trabalho em Nova York ele nos leva de volta, uma Cruzada. Jonathan Barnbrook, artista responsável pela criação da capa do álbum The Next Day, que seria lançado na sequência, afirma que a música é “uma comparação entre a Berlim de quando o Muro caiu e a Berlim de agora. ” A inspiração para o seu trabalho também veio daquele tempo, daquele lugar:  a capa da obra-prima Heroes lançada por David em 1977.bowie_heroes_nextday

Nina Lemos, escritora e jornalista brasileira, moradora da capital alemã, reflete sobre a ligação da canção com a cidade: “Acho que Starman é essa da Berlim do passado, né? Mas acho que a mais da minha vida e da vida de quem vive aqui agora é Where are we now?, que fala dele procurando essa Berlim onde ele viveu. Todos nós que moramos aqui a procuramos! ”

Para entender a volta de Bowie a Berlim, devemos mover nossos olhos e ouvidos um pouco antes até mesmo dele ter feito a pausa em sua carreira, é o que pensa Mauricio Coletto responsável pelos vocais na banda tributo David Bowie Project Brasil: “Para entender a volta dele a Berlim, precisamos voltar ao final dos anos 90, se pegarmos a discografia dele nessa época, você tem o álbum Hours de 1999, e toda a discografia dele nessa época. Você tem músicas como Thursday’s Child: lembrança da infância dele, tem Seven que também é lembrança da mesma fase, você tem várias músicas nas quais ele começa a fazer um autoquestionamento. Desde o final dos anos 90 ele tinha começado um momento de introspecção que fica mais evidente em Hours e depois em Heathen, quando ele escreve Slip Away que já é um pouco das lembranças dele do final dos anos 70. É uma época em que ele coloca a alma dele, você sente a alma dele e os medos que ele tinha mesmo sendo rico, famoso e poderoso. É quando ele começa a passar por um período de questionamento. Ele estava envelhecendo e vendo o fim se aproximar. Quando você chega em The Next Day eu tenho a sensação pelo que eu vejo no histórico do disco e pelas letras que estão ali de que ele já está meio de saco cheio dessa elucubração dele de tentar se entender, ele está em uma fase de ‘vamos parar com isso e tentar entender melhor’ e acaba fazendo a letra de Where Are We Now?,  uma espécie de momento que ele vive de 1977 e 1979 em Berlim, que ele está vivendo de novo em 2013 com todas as suas lembranças. É um saudosismo simbólico, lá eu me descobri, lá eu me redescobri e agora estou me redescobrindo de novo. É o início de uma ruptura, de uma preparação para o final que vai chegar em Blackstar” (último álbum do cantor, lançado no início deste ano no seu aniversário e dias antes da sua morte).

 

Continua…

 

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