It’s only forever… It’s not long at all

Já sei que tentar fala sobre Bowie em uma página vai ser uma das tarefas mais difíceis que impus a mim, afinal nenhum artista foi tão completo, complexo e único quanto David. Nunca na História – e dificilmente vá acontecer de novo – alguém conseguiu misturar a arte com a cultura pop em um nível tão elevado e tão bem sucedido. A reinvenção, a capacidade de se adaptar… Bem não quero chover no molhado com o clichê do camaleão.

Desafio posto, por onde começar? Pensei em apenas recolocar o texto engraçadinho que escrevi sobre as 10 músicas que acho mais sexy dele, mas pensei que poderia soar como preguiçoso. Pensei em desfilar um pouco do “conhecimento enciclopédico” que acho ter e colocar a série sobre ele em Berlim baseado nos textos que fiz no meu TCC, mas talvez fique para depois…

O primeiro post, no final surgiu, como  não poderia deixar de ser olhando no calendário e revivendo segundo por segundo a dor que foi há um ano acordar e ver a notificação na tela do iPad com a mensagem do app de notícias da CNN: David Bowie dies at age 69. O vazio, o silêncio, a frustração, aquela ausência inexplicável de quem mesmo nunca tendo fisicamente estado do seu lado sempre esteve dentro de você, sempre esteve nos seus dias, nas suas referências, nos seus sonhos.

tumblr_mdssjgjsua1rosrwvo1_1280A cronologia de Bowie na minha vida é um tanto fora de ordem. Como uma boa criança dos anos 80 fui criada com a baba eletrônica, ou seja a TV, com uma dieta de programas infantis e filmes da Sessão da Tarde. A Lenda, História sem fim e O Labirinto eram o cardápio básico, via esses filmes por milhares de vezes, sem no alto dos meus dois anos conseguir separar qual era um e qual era o outro, todos esses me colocavam em uma ilha de fantasia que faziam desejar estar ali e com aqueles seres maravilhosos.

 

tumblr_m35augckli1r3oi7co2_1280Da geração Sessão da Tarde, me converti em geração MTV, mesmo que muito precocemente, já que aos 10 anos eu passava horas tentando sintonizar o sinal na minha TV com antena UHF. E foi aí que um enigmático ser de olhos desiguais começou a me chamar a atenção. Era um clipe sombrio, uma voz forte e um sorriso que me tirava do sério mesmo eu não tendo idade alguma para isso, mas principalmente me remetia a algo que eu não sabia que estava em algum lugar da minha mente há tanto tempo. Foi só aí então que eu entendi que aquele que cantava as lições dos corações imundos e acabava com os meus hormônios pré-adolescente era o mesmo que havia sido a minha primeira visão de príncipe encantado – mesmo que fosse para ser o vilão – nos anos 80. David Bowie e Jareth eram a mesma pessoa, ao contrário de mim que jamais seria a mesma depois de entender essa conexão.

Passei a viver a carreira dele em um looping, uma coisa sem rumo, fui para trás,  de volta aos anos 70 para descobrir de onde vinha aquela genialidade que todos diziam que ele possuía, e comprovei com louvor que ele era aquilo e muito mais. Me apresentou a Iggy Pop, me mostrando que ele era muito mais do que aquele descamisado que cantava Candy (que não tem jeito vai ser a minha música favorita da iguaninha para sempre). Voltei aos meus anos 80 e me apaixonei em definitivo por aquela época e cravei que Let’s Dance seria meu disco favorito. Acompanhei a carreira dele em todos os sentidos no cinema, o vi ser Basquiat, o vi corromper jovens ambiciosos, procurei os filmes mais antigos nas prateleiras das locadoras por aí. O vi chegar no Brasil em 1997, e do alto da minha super frustração de só ter 13 anos na época assisti a cada entrevista, a cada detalhe.

E desse ponto em diante passei sempre a sonhar com o dia que ele voltaria ou que eu poderia ir encontra-lo em algum lugar, uma turnê mundial, uma apresentação em algum lugar, porque claro um homem como esse seria no mínimo imortal, eterno ou o Mick Jagger. Mas os anos iam passando e nada disso acontecia. Eu apenas acompanhava ele pelas telas da TV, chegaram Hours, Heathen (um dos discos mais lindos que alguém já compôs nesse mundo), a internet engatinhava por aqui e procurar algo para poder ver a respeito dele era bem difícil.  Continuava sendo o homem mais enigmático, inteligente. Não importava se eram cabelos ruivos, cabelos longos, ternos bem cortados, tênis, casacos, o mundo parava e funcionava apenas na frequência dele quando estava em algum lugar. O Starman sempre fazia com que todos nós gravitássemos ao seu redor.

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Até quem em 2004 fui derrotada pela notícia de que ele entrara em um hiato e que aparentemente ninguém saberia quando – e se – iria terminar. Ele entregara seu coração a milhares de pessoas que o viam cantar Heroes na Alemanha e depois disso… Depois disso Bowie virou o que nasceu para ser, muito mais que uma pessoa, mas uma verdadeira entidade apenas pairando nas mentes de todos os pobres mortais que habitam esse nosso planetinha azul… O senhor que andava quase anônimo pelas ruas de Nova York carregava a cultura dos últimos 50 anos e boa parte de toda a mudança social nos bolsos junto com a chave do seu apartamento. Mesmo sem gravar um álbum, aparecendo em poucos eventos o seu toque continuava a nos mover, ele continuava a aparecer nas listas dos maiores gênios. Ele era realmente como uma entidade, um santo, um alguém especial para quais todos podiam correr, rezar e se curvar para pedir ajuda contra a mediocridade.

image_2Lembro de um dia específico, ao abrir as notícias da internet pela manhã e encontrar fotos dele e de Bono em um evento de caridade em Nova York, e para os que me conhecem sabem que sempre digo que não seria quem eu sou se não fosse o U2, eles são minha banda favorita, colocaram as pessoas mais do que especiais no meu caminho, me fizeram aprender a escrever sobre música, mas naquele momento eu percebi que, na realidade eu não seria quem eu sou se Bowie não estivesse existido. Foi Bowie que nos anos 70 partiu para Berlim na companhia de Brian Eno e entrou no Hansa Studios para gravar Heroes… O que o U2 fez novamente nos anos 90, no mesmo lugar, com o mesmo produtor, para gravar Achtung Baby e One, que em definitivo é a música que os colocou na minha vida.  E só para confirmar as bênçãos de Bowie por sob a minha vida era Space Oddity que anunciava a entrada do U2 noite após noite na sua tour 360, quando estive no estádio para acompanhar os shows do Brasil, foi como se o ouvisse sussurrar no meu ouvido um AMÉM antes de cada apresentação.

Talvez daí em diante não tenha passado uma semana sem desejar que por um milagre amanhecesse com a notícia de que ele voltaria a se apresentar e eu com certeza estaria lá, não importando o que fosse necessário e como iria conseguir. Mesmo sabendo que era inverossímil, o não esperar nada óbvio de Bowie me fazia acreditar.

5f88d9e5dce7c2df196e39e9d5a4467dThe Next Day chegou do nada em 2013, e em um mundo no qual se sabe tudo antes de todos, foi o segredo mais bem guardado. Sim, será que meu sonho finalmente se concretizaria? Era um álbum novo e depois uma turnê? The Stars (Are Out Tonight), Valentine’s Day, Where Are We Now? – que me devastou como há muito uma música não fazia, parecia um lamento, uma saudades, um quadro pintado sobre um passado que todos nós sentíamos falta mesmo sem não ter vivido.

 

 

Se seguiu o silêncio.

 

Fila, fila, fila, lágrimas, lágrimas, lágrimas. David Bowie is, a exposição mais completa com o acervo sobre o músico desembarcou no Brasil no ano seguinte. E o que vimos foram filas gigantescas de horas para poder visita-la. O que eu vi nas minhas três visitas? Vi o meu mundo, aquele mundo de fantasia dos anos 80 concentrado em andares dentro do MIS em São Paulo. Não podia, mas tocar em uma das peças de roupa usadas por ele talvez seja algo transcendental e que faz o coração acelerar enquanto eu escrevo essas linhas. Eu nunca vou esquecer da sala com todos os seus mais emblemáticos figurinos enquanto ele cantava Absolute Begginers no telão, com um indefectível terno vermelho, e eu sentada no chão olhando tudo chorando como se finalmente ele tivesse me permitido entrar realmente no seu mundo.10153283_10201740416623452_1126952928092242418_n

Blackstar chegou ao Youtube em 2015 e eu sem medo de ser hipócrita, pela rotina maluca que estava vivendo naqueles dias de novembro, basicamente passei por ele sem notar, lia comentários e mais comentários e não conseguia ter tempo de parar para ver e ouvir até que quando em 08 de janeiro o álbum completo surgiu. Me concentrei em Sue, que já conhecia desde 2014 e não pude parar para entender o resto.

11367-music-fashion-and-artistic-icon-david-1000x0-2E quando chegamos ao 10 de janeiro… Ao dia que não poderia ter chegado, e eu no ônibus aos prantos tentando entender o que ele tinha dito naquelas últimas músicas, tentando entender que finalmente o fio de esperança de vê-lo ao vivo tinha sido cortado, de que ele que sempre esteve comigo, nunca mais estaria, ou não sei a partir de agora estaria mais ainda e para todo o sempre. O mundo todo se curvou diante dele, de norte a sul, e mais uma vez a entidade superior chamada David Bowie nos colocou pobre terráqueos por sob as suas asas. Lamentamos em todas as línguas, mas especialmente o celebramos na única que importava: a sua genialidade.

Eu não sei para onde estou indo, mas prometo que não vai ser chato… Eu também não sei para onde estou indo, mas sei que sem você vai ser bem chato.

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